quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Um mundo sem marcas?

É difícil conceber hoje a ideia de um mundo sem marcas tanto quanto a ideia de um mundo livre dos paradoxos atribuídos a elas.


Imagine um mundo sem marcas da forma como conhecemos hoje. Tal cenário já existiu.
Em vez de ir a um supermercado, o consumidor se abastecia através de produtores locais, que faziam parte da mesma comunidade. Desta forma, nenhuma chancela era necessária, uma vez que aqueles ofertando o produto eram conhecidos e caso qualquer problema ocorresse era só reclamar diretamente com o responsável.
Com o desenvolvimento econômico, logístico, tecnológico e a urbanização, estes produtores locais foram substituídos por produtores em larga escala, que engrandeceram suas produções, levando suas mercadorias mais longe.
Desta vez, entretanto, o consumidor não conhecia mais quem era o fabricante. Se algo desse errado, a quem ele iria recorrer? Foi nesta conjuntura que as marcas se fizeram necessárias, para inspirar a confiança do consumidor ao comprar um produto.
Se observarmos o panorama atual, isso ainda se faz verdade. As marcas, entretanto, se expandiram muito além de algumas fronteiras e muitas vezes são globais. A partir de uma marca com valores e entrega consistentes, você tem certeza de que pode tomar uma Coca-Cola onde quer que esteja e sempre será… uma Coca-Cola (por mais que a receita possa ser levemente alterada de país para país).
A globalização também trouxe a possibilidade de ramificar toda a cadeia de produção de uma marca. Um carro de marca japonesa pode ter suas peças fabricadas no Canadá com matéria-prima chinesa e ser montado nos Estados Unidos. Da mesma forma que uma marca de roupas francesa pode ter sua confecção no Cambodia utilizando a mesma linha de produção de uma outra marca italiana. Opa, peraí! Se os produtos são os mesmos, com apenas o logo sendo alterado, como isso beneficia o consumidor?
Acontece que as marcas são muito mais do que produtos, tendo uma série de valores tangíveis e intangíveis agregados, experiências e correlações, carregando assim uma variedade de significados. Ao comprar um produto de uma marca, compra-se muito mais do que suas qualidades funcionais. O consumidor pega emprestado e assimila tais valores à sua persona, quase que moldando, de forma deliberada, sua identidade.
Entretanto, muitos veem este incremento de forma negativa, enxergando as marcas apenas como desculpa para cobrar mais do consumidor por produtos de qualidade ordinária.
De fato, em um mundo dominado pela sede por lucro e falta de ética, é fácil se deixar tomar por uma visão negativa de nossa profissão.
Entretanto, como seria um mundo hoje sem marcas?
Tenho refletido muito ultimamente sobre o case da Uber, um serviço que opera globalmente oferecendo corridas com motoristas qualificados através de aplicativo para smartphone. Como boa usuária de taxis, respirei aliviada quando nos foram oferecidos de serviços semelhantes.
Além disso, moro no Panamá, local onde os taxis são extremamente baratos mas proporcionalmente perigosos, já que não existe regulamentação. Sendo assim, um serviço como Uber só vem a agregar e trazer valor à minha vida, mesmo que por um preço mais alto do que o padrão. Enquanto para o taxista comum tal serviço possa significar o fim de seu ofício, o consumidor foi favorecido com uma alternativa melhor.
No geral, a competição entre marcas e estrutura de mercado favorecem o desenvolvimento de ofertas que de fato melhoram e tornam nossas vidas mais cômodas.
Infelizmente, nem sempre é o caso. Temos vários exemplos em que as marcas têm processos de produção pouco exemplares, danando o meio ambiente e tratando trabalhadores de forma exploratória. Também podem abusar da confiança que inspiram e até acabar prejudicando o consumidor.
Um exemplo clássico são as marcas de pasta de dente. Todas ostentam em seus comerciais belas escovas de dentes cobertas por uma generosa camada do produto. Você sabia, entretanto, que o excesso de pasta utilizado na escovação aumenta a abrasão podendo trazer graves problemas aos dentes e gengivas?
Se um dos objetivos preliminares de uma marca é trazer valor a quem a consome, como é possível que ainda existam aquelas que prezam o lucro a curto prazo em detrimento de melhores condições para seus consumidores, indo contra tudo aquilo que dizem (e parecem) ser?
Pode ser até uma visão utópica e com certeza este tema merece maior aprofundamento, mas se cada um de nós se posicionar de forma ética em relação ao nosso trabalho, o impacto no mercado só pode ser positivo. Entretanto, enquanto ser “escroto” for aceitável – e até ensinado em cursos de marketing, branding e negócios mundo a fora – pouco vai mudar.
As marcas são gerenciadas por profissionais, que são pessoas. Pessoas que também são consumidores. No final, estamos todos juntos nessa.
E você, quais são as vantagens e desvantagens que vê no nosso mundo atual, repleto de marcas, e em um suposto mundo sem elas? Como você pode fazer sua parte para garantir que as marcas que gerencia estão de fato trazendo valor aos consumidores e melhorando suas vidas?
Fonte: http://chocoladesign.com/
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